Depois de André Ventura e Vitorino Silva, esta segunda-feira, 11 de janeiro, foi a vez de Ana Gomes falar com Manuel Luís Goucha numa conversa emotiva sobre a sua vida e sobre as razões que a levaram a candidatar-se a Presidente da República.

A conversa começou logo com grandes emoções ao recordar o marido, o embaixador António Franco, que faleceu em julho de 2020. Foi ele o grande responsável para que Ana Gomes, de 66 anos de idade, avançasse para a corrida ao Palácio de Belém.

No início da conversa, Ana Gomes relembrou a última conversa que teve com o antigo embaixador, já internado. "Essa conversa foi decisiva, porque ele me encorajou a avançar nesta candidatura. Ele estava muito preocupado com o que ia acontecer à nossa democracia, com as ameaças que estão a acontecer a todas as democracias pelo mundo fora, mas também aqui".

Logo após a morte do seu marido, o luto teve que ser colocado de parte para Ana Gomes poder dedicar-se à sua campanha na corrida às presidenciais a Belém. Foi pelos filhos e netos que decidiu avançar com a candidatura. "Eu entrei nesta campanha e foi como pôr o desgosto numa gaveta, que vou ter de reabrir a qualquer altura […] Uma boa parte da inspiração vem dele e eu penso sempre no que é que o António me aconselharia. Porque ele era muito cerebral, muito refletido e dava-me esse lado que me complementava muito bem".

Uma das grandes bandeiras da ex-eurodeputada tem sido o combate à corrupção. "Não podemos ser tolerantes em relação à corrupção. E é aí que eu quero fazer a diferença. Não só na Justiça, mas no governo na presidência da República e todas as instituições democráticas", defendeu.

"Eu candidato-me também pelas mulheres do nosso país".

Depois de 45 anos a trabalhar pela democracia e direitos humanos, no nosso país e outros países”, Ana Gomes abraça um desafio, em parte dedicado também às mulheres que recorda nos tempos da ditadura era vedado o acesso à carreira diplomática. "Foi o doutor Mário Soares, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, que abriu a carreira diplomática para as mulheres em 75".

Admite o progresso que a democracia trouxe à igualdade de género, mas fala ainda em "combates pela frente". "Eu candidato-me também pelas mulheres do nosso país, claramente pelas mulheres do nosso país que trabalham, que hoje estão qualificadíssimas", alerta, acrescentando que "muitas têm a dupla jornada de trabalho, porque quantas vezes não têm o trabalho e depois as tarefas de casa".

A "partilha" de tarefas em casa e campo familiar é ainda "desigual". "E até mesmo agora, com o teletrabalho, são as mulheres que estão mais sobrecarregadas. Mais do que nunca, precisamos de ter fiscalização por parte das autoridades do trabalho, para não permitir abusos e sobretudo abusos contra as mulheres."

É preciso lutar contra o fenómeno da "violência machistas, numa sociedade ainda muito antiquada e patriarcal", onde "90% das vítimas em casa e no espaço público são mulheres e crianças", aponta.

"Isto tem de mudar. Eu acho que uma mulher na presidência da República pode fazer uma grande diferença para que isto mude" diz. "Uma diferença que claramente farei será a garantir que há de facto paridade".

"Eu vivi a ditadura".

Na segunda parte do programa, e ainda em conversa com Manuel Luís Goucha, a ex-eurodeputada relembrou os tempos do Estado Novo e de como a sua família lhe deu, desde cedo, consciência política.

"Lembro-me de aos 12 ou 13 anos ter dito qualquer coisa sobre Salazar à mesa e a minha mãe me ter mandado sair. E eu fiquei muito chocada, porque eu sabia que a minha mãe pensava sobre ele ainda pior do que eu. Mas hoje eu compreendo, porque era para me proteger. Ela tinha medo que eu viesse a repetir aquilo cá para fora".

Ana Gomes ingressou a faculdade nos tempos do ministro da Educação Nacional, Veiga Simão, no rescaldo da morte do estudante Ribeiro Santos, assassinado pela PIDE  — figura que veio a tornar-se num ícone da revolta estudantil que, por sua vez, levou à introdução dos famosos "gorilas" nos estabelecimentos de ensino académico.

"Eu vou para a faculdade, em 72, e é exatamente a seguir que há o assassinato do estudante Ribeiro Santos pela PIDE […] Eram seguranças, mas eram indivíduos que tinham vindo da guerra colonial e que estavam ali para reprimir os estudantes e para reprimir os professores porque chegavam a entrar nas aulas a pedir satisfações aos professores […] Era um regime terrível”.

Questionada sobre qual o político que mais a desiludiu, Ana Gomes não escondeu a desilusão com o antigo primeiro-ministro socialista José Sócrates.

"Sócrates desiludiu-me. Mas, se bem está lembrado, eu nunca apoiei Sócrates. Designadamente nas contendas internas do PS quando ele foi eleito secretário-geral eu não apoiei Sócrates e saí imediatamente da direção do partido onde tinha o pelouro das Relações Internacionais”.

"Houve muita coisa que se foi sabendo a pouco e pouco, que me deixava perplexa: logo as histórias do curso tirado ao domingo, daquelas casas inenarráveis", referiu.

"Eu não sabia nessa altura nem da missa a metade, como não sabia a maior parte dos portugueses, dos socialistas e das socialistas, designadamente que ele vivia à conta de um amigo e que havia a história que a mãe era rica e que isso explicaria muita coisa", referiu ainda Ana Gomes, sem esquecer as alegadas "ligações e os esquemas de corrupção entre Sócrates e o BES".