Ruy de Carvalho, de 93 anos, fez a sua última atuação em palco, com a peça de teatro "A Ratoeira", antes de entrarem em vigor as atuais medidas de confinamento.

No final do espetáculo o ator desfez-se em lágrimas. Na plateia, estava a escritora Francisca De Magalhães Barros que não ficou indiferente a esta atitude e decidiu fazer uma publicação, nas redes sociais, que se tornou viral.

"A CULTURA CHORA! Eu gosto muito do Ruy de Carvalho. Gosto como figura. Gosto como pessoa. Vê-lo em lágrimas, após terminar uma peça de teatro que encerrava 'todo' o sector, foi um murro no estômago prolongado. Eu olho para o Ruy e vejo o teatro. E pergunto: Quanto tempo mais terá o Ruy, para fazer teatro?"

Ruy de Carvalho com o elenco da peça "A Ratoeira". Fotografia: Espalha-Factos

As emoções ficaram à flor da pele e a ativista expressou o que se sentiu naquele momento de comoção e de incerteza quanto ao futuro do setor da Cultura.

"Aquela despedida, de alguma forma, deu-me um frio no estômago. Vejo que sofre por ele, por todos os artistas, pela fome que muitos passam, pelas peças que não vão poder realizar, pelo palco que não vai poder pisar. O teatro chora! O teatro chora... compulsivamente, sem parar, e pergunta: O que me fazem? Porque me abandonam? Porque abandonam toda a cultura que dá vida a este país, agora cinzento? E chora e volta a chorar, escondendo-se atrás de uma grande cortina pesada de veludo! - Não chores teatro, disse-lhe a cultura".

Francisca aproveitou para reforçar a importância da Cultura e, terminar a publicação, a admitir que sem ela não existe vida.

"A mim já me secaram as lágrimas, por agora. Se nós morrermos o país morre. - E se eles nos matarem? - perguntou o teatro. - Se eles nos matarem, como vão resistir sem livros, sem música, sem teatros, ou espetáculos, sem arte ou pinturas, a essência da própria vida? Não percebes, teatro? Se eles nos matarem, estão eles próprios mortos. Sem cultura, não existe vida! E sem vida não existe cultura! Vamos recolher para chorar mas não te esqueças, ninguém nos pode matar!"

O texto acabou por ser partilhado por vários artistas, como José Raposo, Ângelo Rodrigues e Rosa Bela.